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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sementes - Seeds




Somos um percurso de sementes
Quanto de nós florirá
e será pão

Somos um caminho de raízes
se a chuva vier
nasceremos em árvores

Quanto de nós será
fruto

We are a route of seeds
How much of us will flourish
and will be bread

We are a path of roots
if the rain comes
we'll be reborn in trees

How much of us will be
fruit



 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Janela virada ao mar - Window facing the sea


Tenho uma janela virada para o mar, e ao nascer do sol vêm as gaivotas para me acordar. Entram no meu quarto, poisam no lençol e batem as asas para me chamar. E nos bicos trazem raios de luar e rosas perfumadas para me adornar. Tenho uma janela aberta para o mar, e o mar lava-me as mágoas quando o sono não vem e as gaivotas se esquecem de me visitar.
I have a window facing the sea, and at dawn the gulls come to wake me up. They come in my room, and land on my blanket, and flap their wings to call me. And on their beaks they bring moonlight, and scented roses to adorn my bed. I have a window open to the sea, and the sea washes my pains when the sleep does not come and the seagulls forget to visit my window.






quarta-feira, 17 de abril de 2013

Terra de Nod - Land of Nod


Quando Caim foi expulso pelo crime de matar o seu irmão ter-se-á  dirigido à Terra de Nod, à terra de fuga, onde nada na sua vida teria sido fácil...  Este pequeno poema, e as imagens que o acompanham, foram-me sugeridos pelo aspecto da terra e das árvores queimadas, após os incêndios na serra do Caldeirão:

A luz arde nos olhos
a terra é áspera e o vento queima o pensamento,
gume afiado a retalhar memórias
de dias sem história

Terra de exílio sem regresso
rio profundo sem barca nem ponte
o pão amarga e as lágrimas salgam
a água que se bebe

Terra de fuga sem perdão
saudade infinita, sem remédio
Terra de Nod

When Cain was sacked by the crime of killing his brother he'd have headed to the Land of Nod, the land of escape, where nothing in his life would have been easy ... This little poem, and the images that accompany it, were suggested to me by the appearance of the earth and trees burned by forest fires in the hills of  Caldeirão:

The light stings the eyes
the land is rough and the wind burns the mind,
sharp edge shredding memories
of days with no history

Land of exile without return
deep river without boat or bridge
the bread is bitter and the tears salt
the water to drink

 
Getaway land without forgiveness
infinite longing, hopelessly,
Land of Nod






segunda-feira, 15 de abril de 2013

Um jardim no computador VI - A garden in my computer VI


Pode arquivar-se um jardim? Claro que sim. Adormecem-se as flores nos seus canteiros, cantando-lhes com voz suave uma canção de embalar, e vela-se pelos seus sonhos, para que sejam doces... E quando as quisermos ver, quando precisarmos que nos alegrem a alma nos dias em que o sol nos esquece, basta chamá-las pelos seus nomes - Dália, Hortênsia, Frésia, Begónia, Anémona, Cacto -  para que acordem do seu sono feliz e venham, obedientes, iluminar o cinzento deste céu que teimosamente nos abafa...

Can you save yourself a garden? Sure. Sleep the flowers in their beds, softly singing them a lullaby, and watch over for their dreams, for they are sweet... And when you want to enjoy them, when you need your soul to rejoice in the days when the sun forgets us, just call them by their names - Dahlia, Hydrangea, Freesia, Begonia, Anemone, Cactus - to wake them up from their happy sleep, and they will come, obedient, illuminating the gray of this sky that stubbornly stifles our days...







sábado, 13 de abril de 2013

É tempo já - Is now the time




É tempo já de despirmos as palavras
com a naturalidade das pétalas das rosas a cair

e sobre o corpo nu dos sentimentos
desenhar  tatuagens de pássaros e de flores

É tempo já de abrir as portas da cidade e fazer as viagens que sonhámos
enquanto árvores adormecidas na prisão da terra

É tempo já de soltar as correntes e libertar a vida

It is time now to undressing the words
as naturally as rose petals to fall

and on the naked body of the feelings
drawing tattoos of birds and flowers

It is now the time
to open 
the gates of the town
and make the trips that we dreamed
while dormant trees stuck in land

It is now the time to loose chains and free the life





 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Primavera após o fogo - The Spring after the fire


Devagar, o verde reaparece nas colinas, misturando-se com o negro das árvores queimadas. Sobreiros e azinheiras exibem vistosos tufos de nova folhagem, de um brilhante verde-claro, dourado pela luz da manhã. Como que formam ninhos, aconchegados nas axilas negras dos ramos que, lentamente, com a ajuda do vento, as árvores irão descartar.

Os medronheiros sobem novas planas a partir do chão, das raízes sobreviventes, e as ervas renascem como podem, de bolbos e de sementes miraculosamente enterradas. E a serra vai florindo nesta Primavera chuvosa, a chuva que já nos cansa mas que tem vindo a lavar e a curar a Natureza. E os ribeiros cantam e saltitam alegremente de pedra em pedra, numa sinfonia de sons que acompanha o timbre alegre do chamamento dos pássaros e o suave zumbido das abelhas....

E há também o perfume, o cheiro limpo a rosmaninho e a macela, a pinho e a terra molhada.

Slowly, the green reappears in the hills, mingling with the black of the burned trees. Cork trees and holm oaks exhibit showy tufts of new foliage, a bright green goldened by the morning light. Like nests, snuggled in the black armpits of the burnt branches that, slowly, with the help of the wind, the trees will discard.

New arbutus rise up now from the ground, from the surviving roots, and the herbs are reborn as they can, from bulbs and miraculously
buried seeds. And the mountains are blooming in this rainy Spring, rain that gets us already tired but that has washed and healed the Nature. And the streams  joyously sing and leap from rock to rock, in a symphony of sounds that accompanies the cheerful tone of the birds' call and the gentle hum of the bees.

Then there's the perfume, the clean smell of rosemary and chamomile, the pine and the damp earth...









terça-feira, 9 de abril de 2013

Cerros de São Brás


Após umas férias um pouco mais prolongadas, eis-me de regresso desse pequeno paraíso, óptimo para se lavar a alma do cansaço dos dias...

Nos cerros de São Brás o ar é limpo, cheira a mato e a Primavera. Nos cerros de São Brás crescem orquídeas, anémonas, gladíolos e tantas outras flores, mas também crescem casas, grandes e pequenas, com e sem piscina...

Nos cerros de São Brás correm ribeiros que são de Inverno e de Primavera, onde a água canta em tons de prata, as libélulas dançam o seu ballet de todas as cores e o zumbir suave das abelhas é promessa de doçura.

Nos cerros de São Brás o silêncio fala de paz e de outros tempos, de moinhos de vento e de moleiros solitários, cujos fantasmas talvez ainda se ouçam nas noites em que o vento inquieto assobia nas ruínas dos seus velhos moinhos...

After a little longer vacations time here I am, back from that little paradise, great for washing the soul of the daily tiredness ...

In the hills of São Brás the air is clean, smells of spring and wild flowers. In the hills of São Brás grow orchids, anemones, gladioli and many other flowers, but also grow houses, large and small, with and without swimming pool ...

 
From the hills of São Brás streams flow, that are winter and spring streams, where the water sings in tones of silver, dragonflies dance their ballet of all colors and the soft hum of the bees is a promise of sweetness.

In the hills of São Brás the silence speaks of peace and other times, of windmills and lone millers, whose ghosts might still be heard on those nights when the wind restless whistles in the ruins of their old mills ...